e/ou

Uma playlist de 10 faixas e uma bônus, um único arquivo zipado pra download. e/ou, o novo álbum da banda de mesmo nome, é simples assim, como todos os agrupamentos de mais ou menos 10 faixas com mais ou menos 40 minutos de duração que já saíram por este selo do Coletivo Atlas ou pelo Onça Discos ou pela Musicoteca, parceiros neste lançamento. Nestes vastos catálogos cheios de individualidades sui generis, no entanto, em poucas ocasiões aparece algo tão diverso e estranho quanto e/ou, por ser, além de som, diálogo, crítica, uma caixa viajante de afetos e pedaços, criada em parceria com a artista Luana Navarro, que desafia os moldes tradicionais do produto musical.

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arte do álbum: intervenção de Web Mota em foto de Walter Thoms

O álbum abre com um festival de dissonâncias, como o afinar de instrumentos de uma orquestra sem glamour, de Rosto Feio e, pela letra que se segue, imagino estas dissonâncias como o processo dos cristais sendo penetrados pela luz para gravar uma fotografia. Caos completo – como pode alguém pensar deste como um processo ordenado e ideal? É assim, quem sabe, como o processo de composição e gravação deste álbum: muitas das canções existem já há mais de três anos, segurando na suspensão antes de deixarem-se gravar. E, da gravação até aqui, pelo menos um ano inteiro de “mês que vem sai”. Processos tortos, infiltrações, imagens queimadas.

O que segue Rosto Feio é uma amálgama de retratos cotidianos sobre impermanência, desencontro, corpo, cidade. Canto de Terra e Depois me parecem opostas, espelhadas na lista, e as vejo como uma esquina do lado daqui de casa: um terreno baldio, estranha forma geométrica de vida, onde poderia nascer uma nova macieira no meio da cidade, cujo muro sem cor toma metade da quadra, a luz alaranjada dos postes transformando a combinação da parede com a rua esburacada e calçada tomada por mato em um pico grave e dolorido, como a ascensão das cavernosas guitarras de Depois.

Em outro momento de associação livre, a faixa extra Pequena Morte responde Sem título #1. A irresistível e universal pergunta ao final da segunda ouve “o negócio é viver afinal, até o osso” da primeira, como se dissesse que tudo que cabe nessa vida é o que ali deveria caber, e não há coisa que se perca que não deveria ser perdida. Não falo de predestinação, mas há o acontecido, que não muda, e o acontecerá, que é caos.

Mesmo quando caindo em um samba que às vezes saltita, e/ou não deixa de ser característico. Aquele Que Não Veio, faixa derradeira do álbum, fala de fracasso, de um samba que intentava cair no gosto do povo e permaneceu em casa. A letra, de Luciano Faccini e do colaborador de longa data Renato Tortorella, ainda que simples, a mim fala muito: de tentar viver de música mas ao mesmo tempo buscar um caminho distante do mais fácil, artística ou ideologicamente; do sentimento de impotência que domina e do constante fracasso da participação política do povo no Brasil – sentimentos estes que não ficam apenas na letra, mas também se materializam quando o monstro guitarrístico de Luque Diaz entra no segundo verso.

Em Cartografia, Luciano entrega “tive que sair correndo, não deu pra compartilhar tudo que tenho vivido”, a frase agora encerrada na canção, a canção encerrada na playlist. e/ou está finalmente aqui, todo aberto a intempéries e estações, sem pressa, cada canção, porque não, a perfeita imagem daquilo que foi vivido.

escute o álbum completo abaixo:
ou compre através do Bandcamp:
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texto de Lorenzo Molossi
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